Era uma vez uma outra vez, tarde da noite. Uma felicidade ia atravessando uma praça muito escura. Não sabia que estava escura, porque ia de olhos fechados. Aquela felicidade se guiava pelos ouvidos. Seguia barulhinhos ou era arrastada por músicas. Sorria em direção a qualquer som que lhe agradasse, qualquer melodia que a deixasse arrepiada a carregava. Não vivia sem arrepios e às vezes quase morria a sentir falta de rir. Música -o mundo está redondo de saber- não é coisa que a gente vê em qualquer quando. Às vezes a gente ouve, mas não escuta, fica procurando escutar, mas não vê um pingo de i sequer na mensagem e se desliga do momento, perdido na procura. Essa felicidade sim, via letra onde só tinha um pingo. Não se perdia fácil e sempre achava um jeito de rir, com aquela audição apurada, que interpretava os ventos e sabia das notas do fogo. Raríssimas felicidades pulsavam no tempo do mar como essa, sendo que algumas ainda nem chegaram a ouvi-lo.
Essa felicidade às vezes se deitava para reparar melhor a terra, com os sons dos passos de insetos, das folhas caindo, reparando os farfalhares distantes avisando a volta do vento, os chiares apontando para que lado estavam as ondas de um mar ou uma corredeira de rio, e era assim que se mexia. Fome, sede e paixão a moviam. Ela ouvia e, se gostasse, ia pra lá, fosse lá onde tivesse que chegar. E quando não ia pra lá, ia no sentido oposto, pelas paixões de si mi ré lá, aiai. Alguns sons a levavam tão longe das ondas, por cavernas tão longe das folhas, por profundidades tão densas, que ela quase não voltava. Certa vez quase se afogou num ohm. Foi uma daquelas vezes em que achou que não estava ouvindo mais nada, que estava apenas insistindo com o tempo, procurando aquele som que, até instantes atrás, seguia de perto, quase ao alcance de um toque. Nessas horas de desgosto, primeiro, tinha a sensação de que não ouvia nada além de si mesma, então ia perdendo o sorriso sem perceber, finalmente sentindo um arrepio que não era bom. No instante em que entendia que já não conversava com sentidos, mas com lembranças, não mais se reconhecia em si. Era comum um deja vu, que lhe fazia bem ao provocar que pensasse e realizasse que aquela melodia tinha sumido, acabado ou morrido, e pronto. Quisesse mais, fosse atrás de outra. Outro arrepio bom. E achava outro assim, num estalar de ideias. Escolhia outro disco pela capa e ia brincar de perto. Mas isso era distração leve, diferente daquela, vibrante e quase magnética, que arrastou-a através daquela praça inteira sem que reparasse a lua subindo no céu, os ratos subindo nos bancos, os gatos caçando nas moitas, as baratas em banquete, a fonte desligada, a coruja, os morcegos e, uma hora, a chuva.
Mas, de repente, aquela melodia parou, e a felicidade deteve o passo, e todos os sons do momento a assaltaram. Ela estava em outro tempo e, de susto, todas as ondas sonoras daquela praça naquela noite a atingiram. Tudo, mais os grilos, mais uns besouros, mais umas mariposas batendo asa em lâmpadas frias, rodopiando com a felicidade, que relutava em se deixar dançar por aquele convite invasivo. Ela queria de volta aquela melodia que acompanhava, queria uma continuação, um algo além do que se oferecia. Onde estaria agora aquele "lá" aonde ela achou que ia chegando? Focou nos grilos tentando sintonizar-se consigo mesma e, instantes depois, já estava rindo de novo, propositalmente se lembrando com ajuda da paisagem sonora. Primeiro sentiu dó, rindo ao ter de volta os pés no chão, então inflou o peito, já com revigorada pulsação, e voilá. Abriu os olhos. Achou graça um pouco além da conta para uma noite tão típica. Adormeceu assim que relaxou, no chão, mais especificamente na grama, primeiro pensando no que poderia ouvir na lua, depois sonhando com flautas que faziam chover. E choveu. Ficavam os ratos se questionando enquanto a observavam: choveu para que ela dormisse gostoso ou ela dormiu gostoso para que chovesse? E choveu até amanhecer. A felicidade acordou várias vezes, voltando a dormir de cansada e se levantou só quando deu fome. Um passarinho despertara seu apetite antes de despertar a ela própria. Aliás, eram duas coisas que com facilidade se viam naquela praça: a felicidade, seu apetite e os passarinho. Ainda que não em qualquer quando.













